D. Rui Valério: “Ajudámos o ser humano a tornar-se mais humano?”

O líder do futuro não será apenas aquele que domina a tecnologia, mas quem souber colocá-la ao serviço da dignidade humana

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A inteligência artificial pode ser o contexto, mas não é, na interpretação de D. Rui Valério, a verdadeira questão da encíclica Magnifica Humanitas, de Leão XIV. No Almoço de Abertura do Ano da ACEGE, o Patriarca de Lisboa defendeu que o centro da reflexão está no próprio ser humano, na sua dignidade e nos fundamentos sobre os quais se constrói a vida em comum. Uma perspectiva que transportou para o universo empresarial, propondo a verdade, o trabalho e a liberdade como três dimensões fundamentais de uma liderança orientada para o bem comum
POR HELENA OLIVEIRA

O que significa ser humano num tempo em que a tecnologia parece capaz de fazer cada vez mais coisas por nós? Foi a partir desta questão que D. Rui Valério desenvolveu a sua reflexão no Almoço de Abertura do Ano da ACEGE, dedicado ao tema “Líderes pelo Bem Comum”.

O Patriarca de Lisboa começou por sublinhar que a primeira encíclica de Leão XIV não deve ser entendida essencialmente como um documento sobre inteligência artificial. “A verdadeira questão da Magnifica Humanitas não é a Inteligência Artificial”, afirmou. “Na realidade, a Inteligência Artificial constitui apenas o contexto. O tema central é outro.”

Esse tema é a própria condição humana. Quem é o ser humano? O que significa ser pessoa? Sobre que fundamentos se constrói a vida em comum? E que lugar ocupa Deus numa sociedade cada vez mais marcada pelo poder da tecnologia?

Sobre que fundamentos construímos as nossas empresas?

Na interpretação de D. Rui Valério, a encíclica desloca deliberadamente a reflexão da tecnologia para a transcendência. Não começa pelos algoritmos, mas por Deus. Para ilustrar esta ideia, o Patriarca destacou uma imagem da tradição cristã destacada por Leão XIV na encíclica, a partir do pensamento de Santo Agostinho: a oposição entre Babel, “símbolo de uma sociedade construída sobre o amor de si próprio até ao desprezo de Deus”, e Jerusalém, “expressão de uma comunidade fundada no amor de Deus e na entrega aos outros”. Duas formas de compreender a existência e de organizar a vida em comum.

Uma oposição que o Patriarca transportou para o universo empresarial: estamos a construir Babel ou Jerusalém nas nossas empresas? A resposta está nos valores que orientam as decisões e nos princípios sobre os quais cada organização se constrói. Afinal, a mesma tecnologia pode servir propósitos muito diferentes. “Se o coração estiver orientado para o bem comum, a tecnologia tornar-se-á instrumento de promoção humana. Se estiver orientado para a dominação, para o lucro absoluto ou para a manipulação, a mesma tecnologia transformar-se-á num instrumento de desumanização.”

É por isso que, para o Patriarca, a reflexão não pode limitar-se à inovação ou à eficiência. A dignidade humana exige fundamentos mais profundos, que, na perspectiva cristã, assentam na relação com Deus. “A primeira proposta da encíclica não é tecnológica nem económica, é espiritual”, sintetizou.

Esta perspectiva coloca uma exigência particularmente importante a quem lidera: a capacidade de discernir num tempo dominado pela velocidade e pela pressão para decidir.

“Há momentos em que a velocidade impede a compreensão. O discernimento surge, precisamente, com uma capacidade de resistir à tirania da urgência”, afirmou D. Rui Valério. Discernir, explicou, não é apenas escolher entre opções, mas procurar a verdade, distinguir o que promove a dignidade humana daquilo que apenas aparenta fazê-lo e reconhecer a dimensão espiritual das decisões.

Esta capacidade de discernimento ganha particular relevância perante a inteligência artificial. “A inteligência artificial oferece respostas, mas o discernimento procura significado. A inteligência artificial organiza informação, mas o discernimento procura sabedoria. A inteligência artificial calcula probabilidades, mas é o discernimento que pergunta e procura pelo bem e pelo bem comum”.

Mas como orientar esse discernimento? Para o Patriarca, a Doutrina Social da Igreja oferece critérios para avaliar os desafios contemporâneos, sem pretender fornecer soluções técnicas, colocando sempre a dignidade da pessoa humana no centro da reflexão. Foi à luz destes princípios que destacou três dimensões fundamentais em risco na era da inteligência artificial: a verdade, o trabalho e a liberdade. 

A verdade não cabe num algoritmo

“Se tivéssemos de identificar uma das maiores crises do nosso tempo, talvez não fosse a crise económica. Nem sequer a crise política. Talvez fosse a crise da verdade.” Foi assim que D. Rui Valério introduziu o primeiro dos três eixos da sua reflexão, evocando as advertências de Bento XVI.

Numa cultura dominada pela instantaneidade, em que a inteligência artificial permite obter respostas quase imediatas, o Patriarca lembrou que responder não é o mesmo que compreender e que disponibilizar informação não significa alcançar a verdade. Conhecer exige esforço, estudo, diálogo, precisamente aquilo que a aceleração tecnológica parece tornar cada vez mais difícil. “A verdade exige tempo. Exige silêncio. Exige capacidade de escuta. Exige disponibilidade para aceitar que nem tudo pode ser reduzido ao cálculo”.

Esta reflexão tem consequências directas para as empresas. Nunca foi tão fácil recolher dados, medir comportamentos, prever tendências ou analisar mercados. Mas a abundância de informação não garante melhores decisões, nem assegura que uma organização permaneça fiel à sua missão.

“Uma empresa pode possuir todos os indicadores e, ainda assim, perder o sentido da sua missão”, advertiu D. Rui Valério. Daí a necessidade proposta por Leão XIV de uma “ecologia da verdade”, uma cultura organizacional que procure não apenas eficiência e resultados, mas também significado e propósito.

Porque, em última análise, o desafio da liderança não está apenas nas possibilidades abertas pela tecnologia, mas nos critérios que orientam a sua utilização. “A questão decisiva não é aquilo que a tecnologia pode fazer. A questão decisiva é aquilo que devemos fazer. E essa pergunta não pode ser respondida por nenhum algoritmo”.

O trabalho não pode ser reduzido à produtividade

“Se a verdade é o primeiro bem comum, o trabalho constitui, talvez, o primeiro lugar onde a dignidade humana se torna visível”. Foi a partir desta ideia que D. Rui Valério abordou o segundo eixo da sua reflexão. Retomando a visão desenvolvida por Leão XIV na encíclica, recordou que, na Doutrina Social da Igreja, o trabalho tem um valor que ultrapassa a sua dimensão económica.

“Trabalhar não é apenas produzir. Trabalhar é participar na obra da criação”, afirmou, acrescentando que “o trabalho não é apenas um instrumento para ganhar a vida, mas uma dimensão constitutiva da vocação humana”. É através do trabalho que as pessoas desenvolvem capacidades, estabelecem relações, constroem comunidades e participam na transformação da sociedade, afirmou ainda.

Uma perspectiva que ganha particular relevância perante a revolução tecnológica em curso. A inteligência artificial promete ganhos extraordinários de produtividade e permite executar em segundos tarefas que antes exigiam horas. Mas esta transformação encerra um risco: o de avaliar o trabalho exclusivamente pela eficiência e os trabalhadores pelos mesmos critérios utilizados para medir o desempenho das máquinas.

“Não podemos permitir que a lógica da eficiência se sobreponha à lógica da dignidade”, relembrou, nas palavras do Papa, o Patriarca. Na sua leitura da encíclica, sublinhou que Leão XIV não rejeita a inovação, antes reconhece os benefícios das novas tecnologias, insistindo, contudo, que devem ser avaliadas à luz da dignidade da pessoa humana.

É neste sentido que o Papa propõe uma aliança entre responsáveis políticos, empresários, trabalhadores e comunidade científica, capaz de assegurar que a transformação tecnológica não se faça à custa de quem trabalha.

“Não se trata apenas de gerir uma transição tecnológica, trata-se de garantir que essa transição permaneça humana. O futuro não pode ser construído contra o trabalhador, tem de ser construído para o trabalhador e para a sua família. E com ele”, afirmou D. Rui Valério, retomando a mensagem de Leão XIV.

O verdadeiro progresso não se mede, portanto, pela capacidade de substituir pessoas por máquinas, mas pela possibilidade de utilizar a tecnologia para libertar os seres humanos para aquilo que só eles podem fazer: “criar, pensar, amar, servir e construir comunhão”.

A liberdade não é apenas poder escolher

O terceiro eixo da reflexão de D. Rui Valério foi a liberdade, um conceito que, observou, nunca esteve tão presente no discurso contemporâneo, mas que frequentemente se confunde com a ausência de limites ou com a possibilidade de escolher qualquer coisa a qualquer momento.

A tradição cristã, recordou, propõe uma compreensão diferente. “A liberdade não consiste apenas em escolher. Consiste em escolher o bem. Não é apenas uma capacidade de decidir. É capacidade de orientação para a verdade”.

Ao abordar a liberdade na era digital, D. Rui Valério destacou uma preocupação igualmente presente na encíclica de Leão XIV: a liberdade não depende apenas das escolhas individuais, mas também das estruturas tecnológicas, económicas e culturais em que vivemos. Mas não perde, por isso, a sua dimensão interior e espiritual, que exige conhecimento de si próprio, procura da verdade e capacidade de resistir à manipulação, aos medos e aos impulsos que condicionam as nossas decisões. É neste contexto que colocou uma pergunta decisiva: “A pergunta decisiva não é se as máquinas nos tornarão mais inteligentes, mas sim se os homens continuarão a ser livres.”

Construir a “civilização do amor” no coração da economia

Depois de abordar a verdade, o trabalho e a liberdade, D. Rui Valério regressou àquela que, na sua leitura, é a proposta mais profunda da encíclica Magnifica Humanitas, de Leão XIV: a construção daquilo que Paulo VI designou como a “civilização do amor”. Uma expressão que pode parecer distante da realidade empresarial, mas que, como sublinhou o Patriarca, tem consequências directas na forma como se organizam as empresas e a própria economia.

“O centro da actividade económica não é o capital, nem a tecnologia, nem sequer o lucro. O centro é a pessoa humana”, afirmou. Isto não significa desvalorizar os resultados económicos ou a inovação. “O lucro é necessário, a eficiência é indispensável, a inovação é imprescindível”. Nenhum destes elementos pode, contudo, transformar-se num fim absoluto. “Quando isso acontece, a economia deixa de servir o homem e começa a servir-se dele”, enfatizou.

Para D. Rui Valério, a caridade e o amor não pertencem exclusivamente à esfera privada. São também princípios capazes de orientar a vida social e económica, impedindo que a racionalidade empresarial se desligue da dignidade humana.

Num mundo cada vez mais automatizado, esta perspectiva exige também uma outra forma de exercer a liderança. As máquinas podem executar tarefas e os algoritmos processar dados, mas continuam a ser as pessoas a criar confiança, a inspirar outras pessoas e a dar sentido ao trabalho colectivo.

Para D. Rui Valério, o líder do futuro não será apenas aquele que domina a tecnologia, mas quem souber colocá-la ao serviço da dignidade humana. Mais do que aumentar resultados ou construir organizações eficientes, será alguém capaz de “fazer crescer pessoas” e de construir comunidades humanas que gerem esperança.

A este propósito, o Patriarca recuperou uma afirmação de Leão XIV: “A civilização do amor não nasce de um gesto único e espectacular, mas de uma soma de pequenas e tenazes fidelidades que travam a desumanização”. 

Uma ideia com particular significado para o mundo empresarial, porque recorda que a transformação da sociedade não depende apenas das grandes decisões políticas ou económicas. Começa também nas escolhas quotidianas: na forma como são tratados os trabalhadores, na justiça das remunerações, na atenção aos mais vulneráveis, na responsabilidade perante as famílias, na ética das decisões e na verdade das relações. “Numa palavra, começa na fraternidade.”

Foi neste ponto que o Patriarca deixou o seu desafio aos empresários e gestores cristãos presentes: serem construtores da “civilização do amor”. “Não à margem da economia, mas no seu coração. Não apesar da empresa, mas através dela. Não contra a inovação, mas orientando-a para o bem comum”.

Mais do que aquilo que as empresas produzem ou do quanto conseguem crescer, é a sua contribuição para o desenvolvimento humano que, no entender do Patriarca, deve definir o verdadeiro sucesso. “A pergunta decisiva será sempre esta: ajudámos o ser humano a tornar-se mais humano?”

Se a resposta for afirmativa, acrescentou, teremos contribuído para construir não apenas empresas de sucesso, mas uma sociedade digna da humanidade que Deus confiou às nossas mãos.

E foi com este desafio que D. Rui Valério encerrou a sua intervenção, apelando aos empresários e gestores cristãos para que façam das suas empresas verdadeiros “laboratórios de fraternidade”.

Nota final: Este artigo reúne as principais ideias da intervenção de D. Rui Valério, que incluiu outras reflexões e referências filosóficas, teológicas e espirituais sobre a condição humana, o discernimento, a liderança e os desafios da transformação tecnológica. O vídeo integral do Almoço de Abertura do Ano da ACEGE permite acompanhar o desenvolvimento completo do seu pensamento e a riqueza dos argumentos apresentados.