O paradoxo do crescimento

Uma análise económica da felicidade, por muito útil que seja, passa sempre ao lado do núcleo fundamental

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Não vale a pena protestar contra a falsidade das medições económicas, porque aqueles que o fazem, em geral, não percebem o que estão a dizer. Por muitos erros que tenham, os números são objetivos e informativos. Aliás, qualquer observação sensata de Portugal consegue notar que o país cresceu bem nos últimos anos e melhorou espantosamente nas duas últimas gerações; para todos, incluindo os pobres. Pelo seu lado, a França é uma das sociedades mais ricas que o mundo alguma vez viu. Só que portugueses e franceses não andam mais satisfeitos. Aliás estão mesmo mais resmungões que os seus avós. Como explicar isto?
POR JOÃO CÉSAR DAS NEVES

“Ai de vós, os ricos, porque recebestes a vossa consolação!” (Lc 6, 24). O que pode realmente significar esta expressão paradoxal de Nosso Senhor?

Na apresentação do Orçamento de Estado, no passado dia 8, o senhor Ministro das Finanças afirmou: “entre 24 e 26 o rendimento líquido real das famílias cresceu cerca de 15%; o que significa que as famílias tiveram, do ponto de vista real em termos líquidos, mais dois salários em 26, na prática, do que tinham tido em 24”.

A frase, como é costume nas declarações políticas, levanta alguns problemas de rigor estatístico. Por exemplo, os dados de 2026 ainda não saíram e não se sabe que indicador exato está a ser usado. Não vale a pena entrar nessa discussão porque, mesmo que o senhor Ministro exagere, e o número verdadeiro seja metade (mais um ordenado mensal por ano em apenas três anos) o valor é inacreditável. De facto, as famílias portuguesas não se sentem nada mais ricas. Por acaso, devido às recentes subidas dos preços do petróleo, muitas declaram-se à beira da miséria.

Deixando as tricas do momento, podemos alargar o efeito notando que a taxa de salário média, deflacionada pelos preços de consumo, mais do que duplicou entre nós desde o 25 de abril. Mas é evidente que os trabalhadores não se acham duas vezes mais abastados que há 50 anos. Muitos deles até se dizem mais pobres. Entretanto em França, um país muito mais rico que Portugal, os jovens incendeiam as ruas e os eleitores irritados manifestam o descontentamento, no meio da sua riqueza, preparando-se para votar nos extremos radicais.

Não vale a pena protestar contra a falsidade das medições económicas, porque aqueles que o fazem, em geral, não percebem o que estão a dizer. Por muitos erros que tenham, os números são objetivos e informativos. Aliás, qualquer observação sensata de Portugal consegue notar que o país cresceu bem nos últimos anos e melhorou espantosamente nas duas últimas gerações; para todos, incluindo os pobres. Pelo seu lado, a França é uma das sociedades mais ricas que o mundo alguma vez viu. Só que portugueses e franceses não andam mais satisfeitos. Aliás estão mesmo mais resmungões que os seus avós. Como explicar isto?

O primeiro elemento a referir é chamado “paradoxo de Easterlin”. Em 1974 o economista americano Richard Easterlin, um dos primeiros investigadores a estudar economicamente a felicidade, notou que ao longo do tempo ela não tende a aumentar à medida que o rendimento cresce: embora, num determinado momento, as pessoas mais ricas se digam geralmente mais felizes que as com ganhos inferiores, rendimentos mais elevados não geram maior felicidade ao longo do tempo. Este resultado tem gerado controvérsia, mas ele encaixa com algumas outras descobertas recentes da teoria económica.

Daniel Kahneman, o único psicólogo Nobel da Economia, junto com o seu colega Amos Tversky, revolucionou a ciência cinco anos depois de Easterlin, com a “teoria do prospeto”. Esta abordagem, entre outros aspetos, afirma que as pessoas julgam a sua situação, não em termos absolutos, mas relativamente aos que as rodeiam. Por outro lado, todos rapidamente se habituam às novas circunstâncias, avaliando a sua posição no enquadramento em que vivem. Deste modo o crescimento económico que a humanidade indubitavelmente registou nos últimos séculos, embora melhore espantosamente o bem-estar físico de todos, incluindo os miseráveis, não tem um efeito comparável na perceção subjetiva de satisfação.

Por isso, diga o senhor Ministro aquilo que ele quiser, tenha ele muita ou pouca razão, os eleitores vão sempre culpá-lo por não estarem tão bem como aquilo que achavam que deveriam estar. E isso pouco tem a ver com a melhoria efetiva que tiveram. Este é o triste destino dos bons governos, que nunca serão recompensados pelos ganhos que geraram.

Muito mais importante, esta é, em grande medida, a causa da maldição dos ricos: já receberam a sua consolação, e o que têm sabe-lhes sempre a pouco. Podemos discutir até à exaustão se o dinheiro traz ou não felicidade, mas colocar a questão a esse nível é já perder de vista o essencial.

Como o papa Leão XIV afirmou na sua última encíclica: «Construir uma cidade orientada para o bem comum exige, em primeiro lugar, edificar sobre a rocha da relação com Deus. Reconhecer que a verdade do seu amor nos chama a uma vida “em abundância” (Jo 10, 10) e à comunhão com Ele. Também nós podemos dizer com Santo Agostinho: “Criastes-nos para Vós e o nosso coração vive inquieto, enquanto não repousa em Vós” (Confessiones, I, 1, 1). Na verdade, Deus gravou no nosso coração um desejo de felicidade, que envolve todas as dimensões da vida, e a Igreja, no diálogo com os homens e as mulheres do nosso tempo, sente a urgência de guardar e orientar essa aspiração rumo à sua verdade mais profunda.» (Magnifica Humanitas, 11).

Por isso é que uma análise económica da felicidade, por muito útil que seja, passa sempre ao lado do núcleo fundamental.