Des…conectar – reflexão para as férias

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Há um som que já quase ninguém repara que ouve: a notificação. Chega a qualquer hora e quase sempre respondemos de imediato porque hoje tudo nos parece urgente, porque fomos treinados a acreditar que estar disponível é o que nos mantém presentes e não nos deixa ficar para trás. Não creio que assim seja.  

Há um dom que todos temos e que raramente exercitamos: o de escolher, deliberadamente, onde colocamos a nossa atenção. Podemos estar a jantar em família, a ler um livro, a ouvir um filho contar o seu dia ou mesmo a rezar e estar verdadeiramente ali, por inteiro, sem pressa e sem metade da cabeça noutro lado. Essa capacidade existe em cada um de nós. Só precisa de ser a nossa opção com mais frequência. 

Vivemos a era mais “conectada” da história, e isso em si não é um mal. Pelo contrário é, em muitos sentidos, um bem que a tecnologia nos trouxe e que nos aproxima: nunca foi tão fácil falar com quem amamos, aprender, criar, servir os outros através do nosso trabalho. A questão não é ter menos ligações, mas sim ter a sabedoria de escolher, a cada momento, qual delas merece a nossa presença total. Essa sabedoria pode ser desenvolvida, como qualquer outra competência de liderança. 

O trocadilho que é, na verdade, um convite 

Des…conectar não é um erro ortográfico nem um jogo de palavras vazio. É a descrição exata de uma oportunidade que temos ao nosso alcance: desconectar de um lado, para conectar — com atenção plena. Algo que nos traz mais alegria a nós e aos outros, sobretudo àqueles que mais amamos e que são o nosso alicerce: a Família.   

Como gestores e empresários, sabemos bem o valor de um bom balanço. Sabemos ler um relatório e identificar onde está a oportunidade de melhoria antes de ela se tornar um problema. Esse mesmo olhar atento, tão nosso, pode ser aplicado com generosidade à nossa própria vida. E a boa notícia é que, ao contrário de muitos ativos empresariais, este “relatório interior” está sempre disponível para ser revisto. Basta decidirmos parar por um instante para o revisitar. 

Há uma verdade simples e libertadora nesta reflexão, em tempo de férias, que importa sublinhar: o nosso tempo é o ativo mais precioso que temos, precisamente porque é finito. E é essa finitude que dá valor a cada jantar em família, a cada jogo de volley na praia, a cada final de tarde na esplanada com amigos, a cada momento de presença genuína, a cada conversa com Deus… Não é para ser um peso, é um convite a viver com mais intenção. 

Nas nossas organizações falamos muito de eficiência, de produtividade, de KPIs. Valeria a pena acrescentar um novo indicador às nossas vidas: o da “presença humana plena”. Não como cobrança, mas como meta inspiradora – escutar com toda atenção um colega de trabalho, dedicar tempo de qualidade a quem amamos, olhar a tudo o que nos é dado com admiração e atenção a cada detalhe, contemplar a natureza, pôr-me diante de Deus, de coração aberto e sem pressa. 

A ciência confirma algo que a alma sempre soube: quando escolhemos estar totalmente presentes num só lugar, ganhamos energia, clareza e alegria — em vez de as perdermos. Os melhores líderes não são os que se esgotam numa disponibilidade permanente e pouco planeada, mas os que sabem, com serenidade, estar por inteiro onde precisam de estar. É uma competência que se treina e que traz resultados visíveis tanto na vida pessoal como na liderança. 

Desconectar não é fugir, não é deixar de acolher. É escolher. 

Para um líder cristão, de forma particular, desconectar não é sinónimo de desistir, de abrandar o compromisso ou de fugir da responsabilidade. É, pelo contrário, um “ato de liderança sobre a própria vida” Quem não sabe governar o seu tempo e a sua atenção, dificilmente saberá governar bem uma equipa, uma empresa ou uma família. 

Jesus, o maior líder que a história conheceu, retirava-se com frequência. Subia ao monte. Ia para lugares desertos. Seguramente não seria porque tinha pouco que fazer, mas porque sabia que a fonte da Sua força não estava na agenda cheia, mas no silêncio com o Pai. Se Ele, sendo quem era, sentiu essa necessidade, quem somos nós para acreditar que estamos isentos dela? 

Um convite prático que vai além do espiritual 

Desconectar para conectar pode (e deve) ganhar forma concreta na nossa vida de gestores: 

– Definir horários sem telefone – e cumpri-los como cumpriríamos um prazo com um cliente. 

– Pôr os meios para um momento pessoal – um tempo semanal verdadeiramente livre de trabalho, dedicado à família, à comunidade, a Deus. 

– Substituir notificações por intenções – perguntar, antes de pegar no telemóvel: “é mesmo urgente, ou é apenas um hábito criado?” 

– Agendar aquela nossa oração como se fosse uma reunião importante – porque, na verdade, é a mais importante de todas. 

– Olhar as pessoas nos olhos quando falam – o maior sinal de respeito que um líder pode dar já não é o cargo, é a atenção. 

Não se trata de escolher entre ser um profissional de excelência e fazer-se mais presente na vida. Trata-se de perceber que a nossa melhor versão profissional nasce, precisamente, de uma vida interior bem cuidada. 

Por isso, o convite que a ACEGE deixa aos seus amigos e associados é simples, embora exigente: 

Nestas férias, e sempre que possa, desconecte para se conectar. Com o que e com Quem, realmente importa. 

Com Amizade e votos de um excelente tempo de descanso, 

Patrícia de Melo e Liz 

Presidente da ACEGE